Nos últimos anos, o mercado de carbono evoluiu rapidamente, especialmente com o avanço dos projetos de REDD+, que têm um papel central na conservação de florestas tropicais.
Mas junto com esse crescimento, surgiu um ponto crítico: a confiança nos projetos.
Cada vez mais, investidores, certificadoras e parceiros querem entender não apenas o volume de créditos gerados, mas principalmente como esses resultados são construídos e sustentados ao longo do tempo.
É aqui que o MRV, Monitoring, Reporting and Verification, deixa de ser apenas uma exigência técnica e passa a ocupar um papel central na credibilidade dos projetos de REDD+.
Mais do que uma sigla, o MRV é o que conecta território, dados e tomada de decisão.
O desafio não é medir, é sustentar a consistência.
Em projetos de REDD+, o foco muitas vezes recai sobre a estimativa inicial de carbono e a definição da baseline.
Mas, na prática, o maior desafio não é medir uma vez, é garantir que essa estimativa se sustente ao longo do tempo.
Isso envolve:
- consistência metodológica
- rastreabilidade dos dados
- capacidade de responder a auditorias
- e coerência entre o que é reportado e o que acontece no território
Projetos que não conseguem sustentar essa lógica acabam enfrentando questionamentos, retrabalho e, em alguns casos, perda de credibilidade no mercado.
O que diferencia um MRV robusto em REDD+
Um MRV sólido não começa no reporte. Ele começa na forma como o projeto é estruturado.
Em projetos de REDD+, isso significa entender profundamente o território, suas dinâmicas de uso do solo e os vetores de pressão que influenciam a área ao longo do tempo.
Também significa garantir que todas as decisões técnicas estejam conectadas desde o início, da definição da baseline à coleta de dados em campo e ao monitoramento contínuo.
Outro ponto crítico é a integração de dados.
Campo, sensoriamento remoto e análises espaciais precisam operar de forma coordenada. Quando essas camadas não conversam entre si, a rastreabilidade se perde e a governança da informação fica comprometida.
O papel da tecnologia e da governança de dados
Projetos de REDD+ são, por natureza, processos de longo prazo. Isso exige estruturas que garantam:
- histórico consistente
- transparência nas decisões técnicas
- e facilidade de verificação
Quando o MRV está apoiado em uma base tecnológica bem estruturada, o processo de auditoria deixa de ser um momento crítico e passa a ser uma consequência natural de um sistema que já opera com organização e clareza.
Na prática, isso reduz incertezas, aumenta a confiança das partes envolvidas e melhora a eficiência ao longo de todo o ciclo do projeto.
Mais do que um requisito, um diferencial competitivo
Tratar o MRV apenas como uma obrigação técnica é um erro comum.
Em projetos de REDD+, ele é um dos principais fatores que diferenciam iniciativas sólidas daquelas que não conseguem sustentar seus resultados ao longo do tempo.
É o que reduz riscos, aumenta a confiança do mercado e sustenta a geração de valor a partir da floresta em pé.
Experiência prática que orienta a forma de fazer
Na Reservas Votorantim, a forma como estruturamos o MRV é resultado de uma trajetória construída na prática.
Antes de levar essa abordagem ao mercado, desenvolvemos e operamos projetos de REDD+ em territórios próprios, enfrentando desafios reais relacionados à definição de baseline, à produção de dados em campo, ao monitoramento de grandes áreas e aos processos de auditoria e verificação ao longo do tempo.
Essa experiência permitiu identificar, com clareza, onde estão os principais riscos dos projetos e como estruturar sistemas mais robustos, com maior integração, rastreabilidade e governança.
Hoje, aplicamos esse aprendizado em projetos próprios e para parceiros, com uma abordagem que combina rigor técnico, uso de tecnologia e uma visão orientada à redução de riscos.
Mais do que gerar créditos, buscamos estruturar projetos capazes de resistir ao tempo, ao escrutínio técnico e às auditorias, contribuindo para um mercado de carbono mais confiável, transparente e consistente.
Marcello Pimentel | Supervisor de Geoprocessamento na Reservas Votorantim



