O Cerrado não é um só. E talvez, essa seja a principal lição para entender o REDD+

Vista panorâmica do Cerrado no Legado Verdes do Cerrado, com serras ao fundo e vegetação nativa em primeiro plano

Em setembro, quando é celebrado o Dia Nacional do Cerrado, é comum falar-se sobre a importância da conservação do bioma que é também conhecido como a “savana mais biodiversa do planeta”.

Mas existe uma reflexão menos óbvia e igualmente importante: não existe um único Cerrado.
Existem particularidades dentro do mesmo bioma, sendo assim, cerrados.

Há áreas de transição com a Amazônia, regiões marcadas pela presença de comunidades tradicionais, paisagens dominadas por veredas, territórios sob forte pressão de expansão agropecuária e áreas onde a dinâmica do fogo molda a vegetação há milhares de anos.
A compreensão dessa diversidade é fundamental para entender por que projetos de REDD e REDD+ vêm ganhando relevância na agenda climática e de conservação do bioma.

Porque proteger o Cerrado significa muito mais do que evitar o desmatamento. É também, compreender as especificidades ecológicas, sociais e culturais.


O que realmente significa REDD?

REDD é a sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal.

Na prática, trata-se de um mecanismo que busca evitar que áreas nativas sejam convertidas ou degradadas, reduzindo assim a emissão de gases de efeito estufa que ocorreria caso essa vegetação fosse perdida.

O conceito surgiu a partir de uma constatação simples: conservar ecossistemas naturais muitas vezes pode gerar benefícios climáticos tão relevantes quanto recuperar áreas degradadas ou implantar novas florestais nativas.

No entanto, ao longo do tempo, ficou evidente que a proteção da vegetação nativa não dependia apenas da conservação da cobertura vegetal.

Também era necessário considerar as pessoas, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos associados a esses territórios.

Foi dessa evolução que surgiu o REDD+.

 
O que muda quando existe este plus (+)?

O sinal de “+” representa justamente a ampliação dessa visão.

Além da redução por desmatamento e degradação, o REDD+ incorpora elementos como manejo sustentável dos recursos naturais, proteção da biodiversidade e geração de benefícios para as comunidades locais.
Ou seja, não se trata apenas de evitar emissões.

É sobre construir estratégias capazes de manter a floresta em pé de forma duradoura, gerando valor ambiental, social e econômico.

 
A importância de uma pergunta aparentemente simples

Todo projeto REDD ou REDD+ depende de uma pergunta essencial:

“O que aconteceria com essa área s o projeto não existisse?”

A resposta constrói aquilo que o mercado chama de linha de base.

É ela que permite estimar qual seria a taxa de desmatamento provável na ausência das ações de conservação e, consequentemente, calcular as emissões evitadas.

Por isso, a credibilidade de um projeto está diretamente relacionada à qualidade dessa análise.
Quanto mais consistente for a compreensão das pressões que atuam sobre o território, mais robusta será a estimativa do impacto climático gerado pela conservação.
Um bioma de muitas realidades

Embora consolidado um único bioma, o Cerrado abriga paisagens distintas.
Algumas regiões enfrentam fortes taxas históricos de conversão da vegetação nativa. Outras, possuem características ecológicas mais preservadas, mas desempenham funções ambientais estratégicas para a manutenção da água, da biodiversidade e da conectividade entre ecossistemas.

Essa diversidade também se reflete nos projetos desenvolvidos no bioma.

Iniciativas implementadas em diferentes regiões do Cerrado precisam considerar pressões ambientais específicas, diferentes contextos fundiários, presença de comunidades tradicionais e distintas dinâmicas ecológicas.

O que funciona em uma região nem sempre será a solução mais adequada para outra.

 
Onde entram as queimadas nessa discussão?

Falar de Cerrado exige cuidado ao abordar o tema fogo.

Ao contrário do que ocorre em muitos ecossistemas, o fogo faz parte da dinâmica natural de diversos ambientais do Cerrado e exerceu papel importante na evolução de inúmeras espécies.

Isso não significa que toda queimada seja benéfica, longe disso!

Incêndios recorrentes, descontrolados ou associados à degradação podem comprometer estoque de carbono, afetar a biodiversidade e aumentar a vulnerabilidade dos ecossistemas.

Por isso, estratégias de conservação para o Cerrado exigem um entendimento muito mais sofisticado do que simplesmente “combater o fogo”.

Elas demandam gestão territorial, monitoramento cada vez mais avançado em tecnologias de prevenção e compreensão dos regimes naturais do bioma visto histórico e considerar tendências de alterações por conta das mudanças climáticas.

As veredas: o coração hídrico do Cerrado

Entre as paisagens mais emblemáticas do bioma, estão as veredas.

Imortalizadas na literatura do Guimarães Rosa, elas representam muito mais do que um elemento da paisagem.

Funcionam como áreas fundamentais para a manutenção dos recursos hídricos, abrigo para espécies da fauna/flora e corredores ecológicos essenciais para a conectividade da biodiversidade.

Proteger as veredas significa proteger parte da infraestrutura natural responsável por alimentar nascentes, cursos d’água e processos ecológicos que sustentam o próprio Cerrado.

E isso reforça uma mensagem importante: conservar carbono e conservar água, biodiversidade e serviços ecossistêmicos são agendas cada vez mais inseparáveis.

Conservar o Cerrado é reconhecer sua complexidade

Parafraseando Guimarães Rosa, para quem “sertão é dentro da gente”, a conservação não acontece apenas na paisagem, mas também nas escolhas de quem vive, produz e cuida desses territórios.

Talvez por isso o grande desafio dos projetos de REDD+ não seja apenas medir carbono. É reconhecer a complexidade dos territórios que estão sendo conservados.

No Dia Nacional do Cerrado, vale lembrar que proteger esse bioma exige soluções capazes de enxergar suas diferentes realidades. Porque existe mais de um olhar para o Cerrado.

E é justamente essa diversidade que torna sua conservação tão estratégica para o futuro climático, ambiental e social do Brasil.

Beatriz Monique Rita – Analista de Projetos e Carbono da Reservas Votorantim

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